Em algum momento até em ir embora pensou. Era hora daquelas onde a cabeça alterna frenética entre sim e não . Tudo pra não passar pelo que podia, e talvez até fosse, coisa muito simples: recebimento de nota. No entanto de uma prova supostamente digna de vergonha. Onde não escrevera metade do que poderia. Em quantidade e em qualidade. Mais ainda nesta última. Não era que se tratasse exatamente de um momento do tipo difícil. Era só que, o dia, o humor, estava de querer que fosse minimamente diferente do que por comodidade convencionou como fácil. E o suposto resultado, suposta nota... Fosse só por falta de estudo, era mais de vergonha pela pouca paciência que teve no dia. Não quisera ter e passara longe. É que houve a tal agonia perante a imensidão de uma folha branca. E fez por ser uma aceitação de derrota já muito típica dele, no dia se quer fora no viés do velho ato mendiguesco de espremer a laranja da consciencia até a penosa ultima gota. Não, daquela vez fora com afinco no extremo oposto do que convencionara hipocrisia e operou com a mínima que lhe foi possível. Então a coisa que lhe seria mais sincero, mais honesto consigo: entregar um brancão. Uma imensa e até bonita folha em branco. Mas ainda teve de cuspir algumas semânticas duvidosas pra desencargo. Cedendo a típica postura temorosa em tudo. Chegara a entrega de nota e ficou claro que seria ao fim da aula. Chamou atenção que esse especifico fora diferente do habitual e a professora quis falar menos. Atípico, os alunos leriam e comentariam trechos do texto referente aquele dia, de modo que a aula teria dessa vez mais que apenas um orador. Agora pois não é que sua cabeça retornara tão arrependida aos primeiros minutos de aula, onde no frenesi ele poderia ter optado por sumir. Não seria o primeiro a falar, não seria o último. Então a tensão era tipo pinto no lixo. De tainha mergulhava fogoso no nervosismo. E com tempo, logo as grandezes eram exponenciais. Segundos-minutos-horas. Tarde, agora nem arregar poderia. Ou não de uma maneira minimamente comprometedora. Naqueles minutos convetidos em horas a mente era algo extremamente poderoso. Nalgum segundo mediocre de descanso que lhe deu a tensão, se perguntara o quão enorme podia ser aquele vão em que se abrigara pra além da dimensão física, onde se encontravam os outros fisicamente disponíveis. E se perguntara sobre o poder de relativisação do tempo: o que eram esses dolorosos cinco minutos? Veio, como se jogasse a toalha pra o fim, o momento mais saboroso de si: existencialismo era uma melodia que tinha como base a desistência. Depois em ciclos os processos mentais se repetiam. Pois que desistir, desistia inclusive disso. Tanto que ocilou entre se entregar, derrotado e livre, e especulou o quão dificil a disciplina, e como poderia abolir e voar. Voar para bem substancialmente além de todo minuciosismo técnico que era a disciplina de Analise do Discurso. E pairaría no além do racional. Mas também é certo que nalguns segundos nem se achou tão animal assim, de não se consciliar com o mundo das lógicas e oratórias. Acontece que ao pingar os olhos no texto que lhe foi dado, mais era como se não houvesse como não sentir-se o maior dos incapacitados, e sentir-se também coagido a necessidade de entregar isso somente: que era um incapacitado. Se não O incapacitado. E era isso, seria isso. E seria bonito. E o melhor, sincero. Só que ai resistiu a desistir pois como dito, desistir de desistir era sua frustrante tônica. E resistiu as longas horas que eram minutos. Aos pensamentos que mandavam fugir com a maior força do mundo até que a tenebrosa hora chegasse. Então explicou ele alguns farelos que ainda estavam ao alcance, a miséria que reteve da introdução do texto, mas se embananou preguiçoso no parágrafo seguinte, seguindo de subito a um silêncio grande. E ao passo que, de dentro da bolsa, pegava um livro, pois se a dizer, com um formalismo tolo, mas surpreendentemente fácil, o seguinte aos amigos e professora - Não que eu creia que importe quase, mas quero dizer que cambaleio muito, e não me adequo, não sinto encaixe, na rotina de cumprir as demandas aqui pedidas, o que todos vão talvez, por coerência e instigados, rebaterem em mente com argumento que aponte que pouca coisa é conseguida com pouco empenho. Então não sei se é certo que atribua a um suposto ritmo individual. Óbvio que é talhável a pedra mais dura, varia nisso mesmo o tempo. Mas por agora não me sinto nisso que se pede aqui tão capacitado. Se não entendi muito bem, ou se não quero faze-lo. Vou sobretudo no ambito que me é o de mais plena jurisdição, ainda que sempre fique enfastiado e temeroso pelo que cause a atmosfera excessiva que sempre impoe todo ego. Então o que posso dizer sobre aqui é mais só do pouco encanto e da fadiga inerente ao que não me encanta, bem como a frustração latente por ter na frente texto desses. E se de mimado, não vou explicar o referido, compenso então com o que julgo mais bonito e cujo muito provavelmente um e outro conheça muito, recitarei de Drummond, "Elegia 1938", então. - E pôs ele a recitar.
Ao termino, continuou o discurso -
O grande duelo entre o simples o complexo,
entre a razão e a emoção...
É tudo que penso Vocês sabem de uma coisa? Tá acabando o mistério. Tá acabando a poesia. Acho que se drummond tivesse assistido a aulas de Análise do Discurso, ou da disciplina de Estilística, será que talvez ainda tivesse escrito o mesmo poema? Me custa acreditar. Tenho rotineiramente constatado pra mim mesmo, nalguma parte vamos nos perdendo nisso aqui, nesse detalhismo, dele algo se perderia. Voces sabem de uma coisa, a cada dia que passa, menos eu me sinto capaz de falar de sentimento. é triste.
A realidade que se seguiu após esse discurso é que todos começaram a opinar. Mas seria mais bonito que todos tivessem ficados calados por alguns segundos estarrecidos e após isso aplaudido.. ou pelo menos abanado a cabeça, e a professora derramado uma lagrima no rosto, comovida, batido o martelo e liberado os alunos que sairiam com uma felicidade coletiva contagiante.